Cibergames Corporativos

Invasão dos Games nas Empresas

A emancipação do Business Game e a chegada triunfal do Advergame no Mercado Brasileiro

Por Karen Reis

Versão .pdf

O segmento de jogos digitais, conhecido também como games, tem crescido assustadoramente nas últimas décadas e apontado como setor mais dinâmico do campo das tecnologias de informação e da comunicação.

No Brasil esta tendência não se distância dos principais mercados de games, como Estados Unidos e Japão, muito pelo contrário, o país do carnaval, da próxima sede da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016, atrai cada vez mais investidores entusiasmados com as previsões otimistas do setor, com isso, traz também novos cursos dirigidos à capacitação de profissionais para atender esta demanda.

Sem esquecermos de mencionar os eventos anuais dedicados ao tema, como o Game World, Brasil  Game Show, SBGames, Fóruns na Fecomercio e nas instituições de ensino.

Os fatores são muitos para tal êxito, mas podemos eleger a compreensão real da influência sócio-tecno-cultural do mundo ciber como um dos fatores de ampliação da cultura dos games em nosso cotidiano.

Competitividade e Sustentabilidade agora depende do conhecimento ciber

 
No jogo “há algo em jogo” que transcende a finalidade biológica, ou seu sentido, que determina sua carga intensa e multiplica  significados. Johan Huizinga, Homo Ludens (1938)

 

Os games contagiam os quatro cantos do planeta, em especial os cibergames, ou seja games disponíveis na internet, podendo ser jogados em multiplataformas: PCs, celulares, consoles, consoles portáteis e TV digital.

Os games são produtos da economia globalizada, da informação e da comunicação. Sua produção exigi alto custo de investimento, planejamento, pesquisa & desenvolvimento, entretanto, este setor destaca-se pela verticalização e horizontalização de versões e a derivação  de serviços, criando um leque de oportunidades e diferenciação para cada game.

Na era ciber – do conhecimento e da excelência organizacional, os cibergames vêem ganhando seu espaço nas empresas. Não há mais dúvidas do papel dos jogos digitais no processo de aprendizagem e disseminação do conhecimento.

A base da excelência organizacional passou a ser o elemento humano, nada mais ciber e contemporâneo que isso, ciber pela sua essência e natureza. Afinal de contas, por que o contexto ciber está presente nas empresas? E qual o papel dos cibergames na construção da inteligência competitiva?

Primeiramente, o ciber está em todos os lugares, em todos os cantos, e não podia faltar nas empresas, todos nós, elementos de informação, provedores e geradores de conhecimento, estamos interconectados numa economia em rede e móvel, onde o tempo, ou melhor, o gerenciamento do tempo é questão primordial para alcançar resultados satisfatórios.

A imersão em novas tecnologias, dentre elas o uso de computação móvel em dispositivos móveis, trouxeram a possibilidade das empresas usufruírem de uma rede acima de tudo social.

O poder de deter novas tecnologias estavam nas empresas, agora o poder está na mãos de quem a consome, contribuindo assim, à expansão da inteligência coletiva.
É neste contexto que os cibergames se apresentam como traços fundamentais à interatividade, espacialidade e imersão, acima de tudo, promovem a competitividade e a capacidade de inovação e renovação do conhecimento.

Os jogos digitais são cheios de imprevisibilidade e introduzem táticas, estratégias, em domínios variáveis. Para o gamer, se faz necessário organizar e reorganizar mentalmente e fisicamente com rapidez.

Business Games e as Simulações de Cenários

Os Business Games, ou simplesmente – Jogos de Empresas, surgiram na década de 50 como adaptações de jogos militares, oriundos da teoria dos jogos.

Os jogos de empresas envolve três formativas da competência humana, a primeira é dado pelo conhecimento contextualizado da situação problema envolvida no jogo e dos fatores envolvidos na dinâmica do processo; a segunda, a habilidade desenvolvida pela ação prática de se jogar e interagir pelo jogo com os demais integrantes em ações interagentes; e a terceira, a atitude promovida pela ênfase na competição e na cooperação.

A simulação ocupa um lugar entre os novos modos de conhecimentos trazidos pela cibercultura. Em uma palavra, trata-se de uma tecnologia intelectual que amplifica a imaginação individual (aumento de inteligência) e permite aos grupos que compartilhem, negociem e redefinam modelos mentais comuns, qualquer que seja a complexidade deles (aumento da inteligência coletiva). Pierre LÉVY (1999:165)

Além das formativas da competência que sobresaltam nos Jogos de Empresas – Conhecimento, Habilidade e Atitude – o famoso CHA – é com este recurso didático andragógico desperta o domínio afetivo, sensorial e congnitvo para educação para adultos.

Entretanto, foi com o advento dos computadores pessoais, da internet, da matemática atrelada a ciência da computação que impulsionaram a elaboração de jogos de empresas, mas agora em ambiente e plataformas digitais,  contudo, mais sofisticados e complexos, tornando a simulação de cenários mais real e dinâmica através do uso de algoritmos de inteligência artificial.

As simulações de cenários são considerados importantes instrumentos no desenvolvimento gerencial e de aprendizagem. Maria Rita Gramigna, pesquisadora e autora de vários livros sobre Jogos de Empresas, classifica os jogos de empresas em: comportamento, mercado, sistêmicos e funcionais.

As classificações sugeridas por Gramigna, colaboram e preparam o indivíduo para a tomada de decisão, sobretudo, apontam uma abordagem sistêmica e funcional para a melhoria do processo de gestão empresarial como um todo.

Uma vantagem imensurável da simulação de cenários é permitir que se faça uma análise de sistemas sem a necessidade de interferir no mesmo. Todas as mudanças e consequências, por mais profundas que sejam, ocorrerão apenas com o modelo computacional e não com o sistema real.

Existem diversas definições para a simulação, dentre elas podemos citar a de Claude Dennis Pegden que diz : “a simulação é um processo de projetar um modelo computacional de um sistema real e conduzir experimentos com este modelo com o propósito de entender seu comportamento e/ou avaliar estratégias para sua operação”.

Como os jogos de empresa devem treinar os participantes para a tomada de decisão é fundamental que os conceitos de gestão empresarial estejam contemplados em sua estrutura.

Luís Carlos Petry, doutor em semiótica, professor e pesquisador na área de jogos digitais diz que simulação é uma situação que pode ser definida pelo mimetismo processual, ou seja, quando algo ou alguém é capaz de funcionar como se fosse outra coisa ou alguém.

Podemos concordar com LÉVY quando ele diz que as simulações de cenário não substituem os raciocínios humanos, porém prolongam e transformam a capacidade de imaginação e pensamento.

Tais simulações podem servir para testar fenômenos ou situações em todas as variações imagináveis, para conhecer melhor um sistema ou para explorar universos fictícios, entretanto com aspectos reais de forma lúdica e imersiva. Cada vez mais é comum recorrer a esta funcionalidade para estudar os fenômenos, a fim de avaliar de forma menos custosa os possíveis interesses de novos modelos de negócios.

O conhecimento por simulação e a interconexão em tempo real valorizam o momento oportuno, a situação e as circunstâncias relativas, que não se assemelham ao conhecimento teórico, a uma experiência prática ou ao acúmulo de uma tradição oral.

Não podemos deixar de apontar, que a simulação, trata-se de um estudo de baixo custo, visto que todo o trabalho de implementação é testado no computador, permitindo ainda o teste de inúmeros cenários e alternativas de solução para os sistemas em estudo.

No ambiente corporativo, de modo geral, a busca de resultados está intimamente associada às respostas sintonizadas com eficácia técnica e humana.

Os [ciber]games corporativos promovem um método envolvente não linear, quebrando as barreiras da cultura da construção linear.

Cibergames Corporativos

Os cibergames corporativos, além de entretenimento têm como objetivo treinamento, desenvolvimento individual e sobretudo, o desenvolvimento organizacional. Eles proporcionam competitividade e cooperação, e são voltados exclusivamente a aprendizagem da cultura organizacional, tendo o aspecto estético e social da instituição como um dos principais propósitos.

Para contextualizar, o cibergames corporativos só são cibers pelas características neles atribuídas – “internetiquês” e “social”. Do ponto de vista, “internetiquês”, eles podem estar disponíveis por (a) App (aplicações) em redes sociais empresariais ou até mesmo em redes de relacionamento, tal como Facebook, Orkut ou Linkedin, este último considerado mais profissional; (b) Plataforma web com login/senha, ou seja ambiente restrito; (c) Link para download, enviado por e-mail convite; (d) Plataforma de e-learning. Sem esquecer de mencionar,  estes games poderão ser jogados em desktop, notebooks, netbooks, smartphones ou tablets, podendo ser do gênero  MMO (massively multiplayer online), ou seja, vários jogadores compartilhando o mesmo jogo ao mesmo tempo. Há ainda os MMORPG (Massively Multiplayer Online Role-Playing Game), ou seja, vários jogadores compartilhando o mesmo jogo ao mesmo tempo, mas assumindo interpretações de papéis durante a “rodada do game” ou ainda “salvar seu perfil de jogador”. Os MMORPGs possibilitam o jogador criar protagonistas e traços de personalidades, como força, fraquezas, méritos e até escolher e personalizar suas “armas” para a jogada.

Concluindo, o “informatiquês” – os cibergames corporativos estão trafegando na infraestrutura da internet, há participação, interação e imersão do indivíduo, conduzindo a desenvolvimento de competências naturais e atribuídas, todavia, favorece sem dúvida, situações e realizações experienciais.

Agora, do ponto de vista social e estético, os cibergames  corporativos por si só assumem um papel facilitador e condutor na ampliação do campo da investigação, análise e compreensão da conduta humana e profissional com base em situações extraídas e simuladas do ambiente sócio-empresarial mais próximo da realidade.
Na maioria das vezes, os [ciber]games corporativos começam como ponto de partida pela área de recursos humanos, com foco nas áreas de desenvolvimento humano, formado pela tríade – treinamento, desenvolvimento individual e desenvolvimento organização.

Esta tríade favorecida à desenvolvimento humano aplicada em ambientes digitais, traz um olhar panorâmico, onde o gamer (jogador) age, experimenta e vivência situações, não é apenas aprender muitas coisas, é aprender coisas diferentes com olhares e experimentações diferentes, conduzindo a cultura da aprendizagem de organizacional.

A aprendizagem Organizacional só acontece pela apropriação de conhecimentos em nível individual, grupal e organizacional. Envolve a convergência de vários tipos de conhecimentos e fatores (hereditários e ambientais). Em relação a construção do conhecimento, seja no aspecto organizacional ou social, a cultura de aprendizagem de sociedade, deve-se a não apenas aprender muitas coisas e sim aprender coisas diferentes.

Os games corporativos apresentam duas perspectivas sobre o processo de aprendizagem individual e coletivo, a primeira delas, define-se pela perspectiva comportamentalista e a segunda, pela perspectiva da cognição – condensação da informação por símbolos e suas representações frente ao grupo nele inserido.
Juan Ignacio Pozo, em sua obra “Aprendizes e Mestres”, aborda sobre a perspectiva do comportamentalismo, subdivide em duas vertentes, a “aprendizagem associativa” como base estrutural do processo de aprendizagem humana. Esta aprendizagem é dada por fatos, habilidade sociais e informação verbal – ou seja, focada em técnicas procedimentais.

A outra vertente, do comportamentalismo, a “aprendizagem construtiva”, baseia-se em teorias explícitas, representações sociais, mudança conceitual e estratégias de aprendizagem – ou seja, mais focada no “ser pensante” – o indivíduo capaz de pensar em alternativas e tomar decisões frente a um dado problema.

Sobretudo, tanto a perspectiva comportamentalista e a cognição, ambas quando inseridas no ambiente digital eles se convergem de tal maneira que fica impossível refletir a todo instante quem é quem. Deve-se isso, aos estudos presentes na fenomenologia, o re-ligare do indivíduo com o universo.

Ambas, sugerem criar na mente do jogador experiências únicas e verdadeiras, mesmo que estejam em ambientes digitais. Todo este processo facilita a vivência intuitiva e criativa, proporcionando mais confiança, mais capacidade de lidar com os problemas reais.

Para Richard Teacher, os jogos corporativos combinam três preceitos: (a) simulação do mundo real, (b) jogo em si; e (c) competição.

Complemento, os preceitos de Teacher, mas ambientalizando-os para [ciber]games corporativos, o jogo em si, introduzimos as características da narrativa, mecânica de jogo, regras, plataforma, gênero, interface e design. E, a competição pode ser organizada através do cooperação entre os jogadores.

As vantagens são muitas para inserir um [ciber]game no ambiente corporativo, não só pelo domínio afetivo, sensorial e cognitivo que os jogos digitais emanam por si só, através de seus elementos hipermidiáticos, eles são fascinantes, mesmo para aqueles os temem por algum motivo em específico. Os jogos causam curiosidade e admiração no final das contas, todo mundo é um jogador nato, e quem não gosta de jogar e ganhar?

Entretanto, é no erro e na vivência que as chances de aprendizagem são maiores, quem nunca ouviu – é errando que se aprende. Nos jogos digitais, esse jargão é mais que verdadeiro, até porque, os jogos digitais remetem à realidade vivida e  experienciada. É também, durante a jogada, as pessoas revelam suas facetas de caráter que normalmente não exibem para evitar sanções.

A natureza dos jogos ou simuladores para ambientes corporativos são híbridos e motivados por matrizes e linguagens sonoras, visuais e verbais, proporcionando ao(s) participante(s) uma experiência de aprendizado marcante e lúdica.

Para alcançar a percepção de êxito para todos os envolvidos, na aplicação do [cyber]game no ambiente organizacional, a análise de não deve somente por conta do jogador, ou seja, do “avaliado”.

Os [ciber]games são híbridos e motivados por matrizes e linguagens sonoras, visuais e verbais

O processo de desenvolvimento e implementação de um [cyber]game corporativo abrange fundamentalmente três papéis: game designer, avaliador e avaliado.
Mas quem é quem? O game designer são os profissionais do desenvolvimento e criação do game. O avaliador normalmente faz parte da área de recursos humanos ou exerce alguma função de liderança e comando. Por fim, o avaliado é o jogador em sim.

Sendo, o game designer e avaliador como construtores de ideias e objetivos, são nestes papéis onde são estruturados os alicerces do propósito do game. O avaliador tem um papel importante na condução da cultura organizacional para equipe de game designer modele o cenário simulado mais próximo do real reproduzindo os desafios e problemas do dia a dia.

Estes desafios podem ter referências ligadas ao comportamento e desenvolvimento pessoal, permitindo enfatizar questões como cooperação, relacionamento, afetividade, dentre outras. Ênfase, à processos ou funções, onde as habilidades técnicas e o conhecimento são a chave para aprendizado específico e pontual.

As duas últimas referências, mercado e sistêmica, são reflexos do macro-ambiente, ou seja, abordam questões ligadas à organização e as estratégias competitivas. Para as referências sistêmicas, o [ciber]game requer informações históricas de origem primárias (dados de vendas, clientes, faturamento, estoque, produção, contabilidade, monitoramento de views em anúncios patrocinados, cliques em banners em websites, etc) e secundárias (dados do censo, IBGE, pesquisas de mercado, flutuação do dolar, risco país, etc) para que o jogador consiga ter em mão um suporte informacional para minimizar erros na tomada de decisão.

Para os jogos com referências de mercado, são destinados a aprendizagem ligadas ao portfólio de produto ou serviços da organização, podendo ter reprodução de casos reais de concorrência. São utilizados normalmente para as áreas de marketing, trademarketing e vendas.

Os jogos com referência de mercado estão conquistando as empresas, não só como instrumento de aprendizagem e capacitação de competências, mas também como advergame (fusão das palavras inglesas Advertise = propaganda e videogame = jogo eletrônico ou simplesmente game = jogo).

Advergame é uma estratégica de comunicação mercadológica, visa promover e divulgar marcas, categorias de produtos e organizações. Os advergames são usados como ferramenta de pesquisa de marketing e audiência com clientes e prospects. É canal de comunicação direta e interativa sem parecer invasiva e acima de tudo, um valioso canal de incentivo ao consumo, mas com o peso do aprendizado, diversão e conhecimento.

Recomenda-se, o uso de dispositivos móveis para advergame e se possível deverá ser um App em alguma rede social de relacionamento (Facebook, Orkut, Linkedin…), por um motivo bem simples, a maioria do público são jovens ou pessoas naturalmente envolvidas com novas tecnologias, em especial touch.

Como nem tudo são flores, o custo de produção de um advergame não é barato, e exige uma equipe de game designer capaz de produzir um game atrativo com elementos de marketing e publicidade suficientes para encantar e impressionar o cibernauta.

Outra tendência, do [ciber]game corporativo independente de sua referência é participar de programas de educação corporativa. Esses programas de educação corporativa, assim como, os [ciber]games corporativos vem ganhando espaço nas organizações, um dos fatores que podemos destacar é a lacuna entre o conhecimento conceitual aplicado à prática de mercado.

O novo ambiente e postura empresarial exige um perfil de gestores e colaboradores voltado ao autodesenvolvimento e aprendizagem contínua. Portanto, articular a gestão do conhecimento e a gestão por competências com instrumentos como o [ciber]games corporativos em plataformas digitais voltadas à educação corporativa estimula e potencializa a inteligência empresarial, contudo, aumenta a competitividade e o valor percebido por todos envolvidos na organização, vale a pena o investimento.

Assuntos relacionados

Tags: , , , , , , ,

Comentários encerrados.