O ser Ciber no espaço desterritorializante

A internet desenvolveu-se no final dos anos 1960, a partir da interação entre pesquisa científica fundamental e programas militares, porém foi lançada comercialmente em 1995, quando surgiram os primeiros provedores comerciais.

Aqui no Brasil o boom aconteceu somente após quatro anos com a explosão de grandes portais, como UOL (1996), Zaz/Terra (1996/1999), IG (2000) e Globo (2000).

Há uma dúvida que sempre paira nas mentes dos internautas em geral: existem diferenças entre internet e ciberespaço. Embora o termo ciberespaço tenha surgido com a explosão da internet, ambas as palavras não são coincidentes.

O ciberespaço é o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial de computadores. O termo especifica não apenas a infraestrutura material de comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações que ele abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam este serviço

A internet pode ser vista como parte das tecnologias digitais, como a infraestrutura de comunicação que sustenta o ciberespaço, sobre as quais montam-se diversos ambientes, como a web, os fóruns, os chats e o correio eletrônico.

O ciberespaço como ambiente de interação, manifestação e relacionamento, suportado pela internet como tecnologia de informação, de tal forma a evitar a utilização do termo internet como sinônimo de ciberespaço. No entanto, o que se quis demonstrar é que as características do ciberespaço estão diretamente relacionadas às características da tecnologia que o produz.

O ciberespaço fornece suporte e expansão à inteligência coletiva; isso não significa que seja sua fonte de desenvolvimento, mas que propicia o seu próprio desenvolvimento. Esse fenômeno é complexo e ambivalente.

Além disso, nos casos de desenvolvimento e processos de inteligência coletiva, seu principal efeito é o de acelerar cada vez mais o ritmo da alteração tecnossocial, o que torna ainda mais necessária a participação ativa da cibercultura.

A cibercultura encontra-se ligada ao virtual e a digitalização da informação pode ser aproximada da virtualização.

LÉVY afirma que, para a cibercultura, a conexão é sempre preferível ao isolamento, é um bem em si. O segundo princípio prolonga o primeiro, já que o desenvolvimento das comunidades virtuais se apoia na interconexão. Uma comunidade virtual baseia-se em afinidades de interesses, de conhecimentos, em um processo de cooperação ou de troca, independente de proximidades geográficas.

Segundo LÉVY o terceiro princípio, da inteligência coletiva, seria sua perspectiva espiritual, sua última finalidade. Esse princípio foi propagado, na década de 1960, pelos visionários Engelbart (inventor do mouse e das atuais janelas de interface), Licklider (pioneiro nas conferências eletrônicas) e Nelson (inventor do conceito hipertexto).

Não há comunidade virtual sem interconexão, não há inteligência coletiva em larga escala sem virtualização ou desterritorialização das comunidades no ciberespaço.

LEMOS (2006), no artigo “Ciberespaço e Tecnologias Móveis. Processos de Territorialização e Desterritorialização na Cibercultura” teoriza que território é a ideia de controle sobre as fronteiras.

As fronteiras podem ser físicas, sociais, culturais, simbólicas, subjetivas e até mesmo virtuais. As fronteiras têm por objetivo delimitar os seus territórios, nos quais o controle é estabelecido por múltiplas relações de poder. Criar um território é controlar processos que se dão no interior dessas fronteiras. Desterritorializar é, por sua vez, movimentar-se nessas fronteiras, criar linhas de fuga, ressignificar o inscrito e o instituído.

Entretanto, se aplicarmos ao ciberespaço o conceito de território delimitado por fronteira, trata-se a cibercultura como um processo contínuo de desterritorialização.

LEMOS acredita que ciberespaço é efetivamente desterritorializante, porém essa dinâmica não existe sem novas reterritorializações.

Para ele, toda mídia, da escrita à internet, cria processos que nos permitem driblar os constrangimentos do espaço e do tempo: envio de mensagens a distância, processos mnemônicos. As mídias contemporâneas instauram processos de territorialização e desterritorialização, a partir da compressão espaço-tempo (HARVEY, 1992) e criam novas geometrias do poder (FOUCAULT, 1979) e novos agenciamentos (DELEUZE, GUATTARI, 1980).

LEMOS alerta que o processo de desrreterritorialização constitui o homem como ser “aberto ao mundo”. O próprio do homem é viver e construir, na natureza, o seu mundo. A cultura humana é uma desrreterritorialização da natureza. Desterritorializado, o homem se vale de meios técnicos e simbólicos para reterrritorializar-se, construindo o seu habitat.

O ser homem como princípio básico na vida social cria e demarca território para “fazer acontecer”, “ser visto” pela sociedade em que está inserido. Delimitar seu território significa controlar condições materiais de existência, e com isso, passam a existir leis, instituições e arquiteturas, mas o vitalismo só existe a partir de tensões desterritorializantes que impulsionam e reorganizam esses “territórios”.

Como esse processo se dá na cibercultura? A cibercultura é uma cultura da desterritorialização devido aos diversos problemas de fronteira, agravados pelas crises de controle e de acesso.

A desterritorialização informacional afeta a política, a economia, o sujeito, o corpo, a arte. A internet é, efetivamente, uma máquina desterritorializante sob os aspectos político (acesso e ação além de fronteiras), econômico (circulação financeira mundial), cultural (consumo de bens simbólicos mundiais) e subjetivo (influência global na formação do sujeito).

Outro artigo de André Lemos, intitulado “Mídia Locativa e Territórios Informacionais”, descreve a relação do acesso e o controle informacional por meio de dispositivos móveis e redes sem fio.

Para LEMOS, o território informacional não é o ciberespaço, mas o espaço movente, híbrido, formado pela relação entre o espaço eletrônico e o espaço físico. Por exemplo, o lugar de acesso sem fio em um parque por redes wi-fi é um território informacional, distinto do espaço físico parque e do espaço eletrônico internet. Ao acessar a internet por essa rede wi-fi, o usuário está em um território informacional imbricado no território físico (e político, cultura, imaginário etc.) do parque, e no espaço das redes telemáticas.

O ciberespaço é um exemplo desse fenômeno: ele nasce como espaço estriado, território controlado pelo poder militar e industrial e vai sendo, pouco a pouco, desterritorializado por novos agenciamentos da sociedade contemporânea.

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